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terça-feira, março 24, 2020
quinta-feira, março 12, 2020
A criação do Estado Português
Veja aqui tudo sobre a Formação do Estado Moderno –
A formação do Estado Moderno é também uma consequência da ascensão da Burguesia, que provoca o declínio do poder feudal. Cai no Enem e nos vestibulares. Então, não perca esta revisão de História!
Antes de estudar a Formação do Estado Moderno e a importância da Burguesia, vamos rever a situação política da Europa ocidental durante a Idade Média (séculos V ao XV)?
Durante este período o modelo de poder era o Feudalismo. A Europa ocidental estava dividida em diversas unidades políticas, os chamados feudos. Neles o poder estava concentrado na mão dos senhores feudais (nobreza). O poder político era, portanto, descentralizado.
A situação começou a mudar a partir do século XI quando as relações feudais foram se alterando, abrindo caminho para a população que morava nos burgos – nome das cidades de então. Vem daí o nome Burguesia.
Dica 1 – Você já estudou e aprendeu sobre os “Feudos”? É um conteúdo importante para o Enem e os vestibulares. Faça aqui uma revisão gratuita: https://blogdoenem.com.br/feudo-idade-media-historia/
Com o crescimento dos burgos e do comércio um novo grupo social, a burguesia, aos poucos foi ocupando espaço nas relações de poder e rivalizando com a nobreza feudal. É dentro deste contexto que ocorreu a crise do Feudalismo e surgiu uma nova estrutura política: o Estado Moderno.
Dica 2 – Quer saber um pouco mais sobre o comércio e as cidades na chamada Baixa Idade Média (séculos XI a XV)? Então, veja aqui este post especial que o blog do Enem preparou para você: https://blogdoenem.com.br/baixa-idade-media/
Os Estados Modernos surgiram da união de interesses entre a burguesia, o rei e alguns membros da nobreza:
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- Para poder ter poder de fato sobre o seu reino, o rei precisava de apoio político e dos recursos econômicos da burguesia;
- Os nobres precisavam do rei para retomar alguns privilégios perdidos com o fracasso das Cruzadas e garantir a manutenção de suas terras;
- A burguesia tinha interesse em unificar o território, pois conseguiria vários benefícios: moeda única, padronização de pesos e medidas, leis unificadas, melhorias em estradas, segurança pública, tributo único devido ao rei.
Dica 3 – Quer saber o que os nobres desejavam ao participar das expedições militares religiosas promovidas pela Igreja católica: as Cruzadas? O Blog do Enem pode te ajudar! Acesse o link e descubra: https://blogdoenem.com.br/historia-cruzadas/
Que tal agora assistir a uma aula sobre o Estado Moderno?
Os Estados Modernos surgiram em momentos históricos diferentes e em situações distintas. Vamos ver como isso ocorreu?
Portugal – A centralização política iniciou no século XI com a chamada Reconquista (luta contra os árabes ou mouros). No século XII, Portugal já possuía um poder relativamente centralizado e forte.

Em 1385 (século XIV), com a Revolução da Dinastia de Avis (batalha contra os castelhanos pelo trono real), o rei João I (imagem no selo comemorativo), da Ordem de Avis, foi auxiliado pela burguesia e conseguiu se separar do reino de Castela (Espanha), e fortaleceu Portugal. A centralização política de Portugal no século XIV permitiu o seu pioneirismo nas Grandes Navegações.
Espanha – O processo de centralização política da Espanha foi bem mais longo que de Portugal. A quantidade de reinos independentes (Castela, Aragão, Leão, Navarra, condados catalães…) e a maior resistência dos mulçumanos dificultaram a centralização.

Apenas em 1469 com o casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão (na imagem), os mouros foram derrotados (1492) e Granada reconquistada. Anos depois Navarra também. Completava-se assim, a formação do reino da Espanha. O novo reino pôde, enfim, investir nas navegações marítimas.

Os reinos de Portugal e Espanha formaram-se a partir dos territórios reconquistados que foram perdidos para os árabes.
França – Filipe Augusto, Luís IX e Filipe, o Belo, deram início à centralização política da França nos séculos XIII e XIV. Com a Guerra dos Cem Anos o nacionalismo francês foi reforçado na figura de Joana d’Arc, a primeira heroína da França como nação.

As guerras religiosas do século XVI prejudicaram a economia e a política francesa. Em 1598, com o Edito de Nantes (imagem), que dera liberdade de culto aos protestantes, é que o rei Henrique IV (na imagem, com a família) tornou-se forte perante a nobreza.

No mapa da acima você vê o território francês antes do reinado de Filipe Augusto. O do centro, a França depois dele. Perceba como sob o seu reinado o território francês tornou-se três vezes maior.
Inglaterra – A centralização política teve início no século XII com Henrique II e terminou em 1485 (século XV) com a Guerra das Duas Rosas, quando Henrique VII subiu ao trono (imagem).

No caso inglês, com algumas exceções, a monarquia teve uma tendência mais moderada, pois, desde o princípio a burguesia adquiriu maior importância e ascendeu socialmente. A Magna Carta (1215), imposta ao rei João Sem Terra, serviu para controlar os excessos reais ao dividir o poder do monarca com o parlamento.
domingo, março 01, 2020
Padre Bolsonarista Estuprou 11 Freiras e foi expulso da Igreja
Religião
Padre brasileiro expulso pelo Papa já foi indicado por filho de Bolsonaro
Publicado em 01 Março.
padre rodrigo maria bolsonaro
Padre Rodrigo Maria é excomungado da igreja por abusar sexualmente de ex-freiras (Imagem: Reprodução/O Popular)
Padre brasileiro é expulso pelo Papa Francisco acusado de estuprar ex-freiras, informa Vaticano. Padre Rodrigo Maria tinha Olavo de Carvalho como referência e já foi indicado por filho de Jair Bolsonaro.
Padre brasileiro expulso pelo Papa já foi indicado por filho de Bolsonaro
Publicado em 01 Março.
padre rodrigo maria bolsonaro
Padre Rodrigo Maria é excomungado da igreja por abusar sexualmente de ex-freiras (Imagem: Reprodução/O Popular)
Padre brasileiro é expulso pelo Papa Francisco acusado de estuprar ex-freiras, informa Vaticano. Padre Rodrigo Maria tinha Olavo de Carvalho como referência e já foi indicado por filho de Jair Bolsonaro.
O Papa Francisco excomungou o padre goiano Jean Rogers Rodrigo de Sousa, conhecido como padre Rodrigo Maria. Essa é a punição mais severa que a Igreja Católica pode dar a um clérigo. As informações foram divulgadas pelo Vaticano nesta quarta-feira (20).
Padre Rodrigo Maria é acusado de estuprar pelo menos 11 ex-freiras e de “lavagem cerebral”. Antes de ser excomungado, o padre brasileiro havia sido transferido para a Diocese de Ciudad del Este, no Paraguai.
A expulsão do padre é o desfecho de uma investigação coordenada pela própria Igreja Católica contra o religioso, que já havia deixado rastros de suspeitas pelas dioceses por que passou.
Há um ano, o padre já havia sido suspenso de cerimônias e proibido de usar seu hábito até o fim da investigação. Meses depois, o jornal Folha de S.Paulo conseguiu contato com o religioso, que negou as acusações e disse ser alvo de “calúnia por 11 mulheres”.
Relembre a reportagem da FOLHA aqui.
“O sacerdote Jean Rogers Rodrigo de Sousa, desta diocese, recebeu do Santo Padre o decreto de perda do estado clerical e a dispensa das obrigações correspondentes”, diz o documento revelado pela Diocese.
A decisão foi tomada em um momento em que o Papa Francisco debate no Vaticano os casos de abusos sexuais cometidos por membros do clero que têm abalado a Igreja Católica nos últimos meses.
Adesão ao ‘Bolsonarismo’
Nas redes sociais, Padre Rodrigo Maria já declarou apoio incondicional ao presidente Jair Bolsonaro (PSL), com citações do tipo “uma Ave Maria para livrar o Brasil do comunismo”.
Nas redes sociais, Padre Rodrigo Maria já declarou apoio incondicional ao presidente Jair Bolsonaro (PSL), com citações do tipo “uma Ave Maria para livrar o Brasil do comunismo”.
Até mesmo o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do presidente, já publicou em suas redes sociais um post indicando o Padre Maria como fonte espiritual e de informação:
Referência do neoconservadorismo brasileiro, Olavo de Carvalho era constantemente exaltado pelo Padre Maria nas redes sociais.
Padre Rodrigo Maria autoproclamava-se um paladino da moral na “luta contra a esquerda e o comunismo”. Segundo o religioso, o ex-presidente Lula tem a “tranquilidade dos pecadores”
Quando surgiram as primeiras denúncias de abusos, Rodrigo Maria se defendeu justificando que “há meninas que se apaixonam” por ele. O padre culpa a “força mais destrutiva do universo, a FMD”. A sigla quer dizer “fúria da mulher desprezada”.
sábado, fevereiro 29, 2020
15 FAKE NEWS MAIS COMPARTILHADAS SOBRE O CORONAVÍRUS

O Ministério da Saúde criou um número de WhatsApp, (61) 99289-4640, para receber “informações virais” sobre coronavírus, que serão analisadas pelos técnicos do governo federal. Desde o início da divulgação dos casos da doença pelo mundo, foram recebidas 6.500 mensagens, das quais 90% eram relacionadas à nova doença. Dessas, 85% eram falsas. No site do ministério, as informações ganham um selo de fake news ou notícia verdadeira.


Na próxima semana, será lançado o aplicativo “Coronavírus SUS”, com dicas, telefones e a possibilidade de encontrar a unidade de saúde mais próxima. Também contará com um pequeno questionário, perguntando, por exemplo, se a pessoa tem febre ou veio de um país com transmissão do vírus. Isso servirá para dizer se a pessoa se enquadra como caso suspeito ou não.
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Já a Polícia Civil do Rio anunciou ontem que a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) investigará autores de fake news que disseminam mensagens no estado.
— Infelizmente, em períodos de crise, algumas pessoas se aproveitam para difundir notícias falsas, provocando pânico ou tumulto na população — afirmou Delmir Gouvea, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada. — Esse fato é tipificado criminalmente, é contravenção penal. A Polícia Civil já está atuando neste momento, fazendo pesquisa em redes abertas, e se precisar até em outras, com mandado judicial, para impedir que pessoas venham a praticar atos criminosos num momento tão delicado como esse.

Muitas das notícias falsas, algumas propagadas em forma de vídeo de supostos cientistas e pesquisadores, se referem a formas equivocadas de prevenção e cura da doença. O Ministério da Saúde adverte que não há vitaminas, medicamentos específicos, óleos essenciais ou vacinas que curem o coronavírus.
O secretário estadual de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, informou ontem que a suspeita de coronavírus foi descartada em dois turistas franceses que foram internados em Paraty, na Costa Verde. Segundo o secretário, 17 casos ainda estão sob suspeita no estado — 19 informados pelo Ministério da Saúde menos as duas suspeitas envolvendo os franceses.
Na abertura da entrevista coletiva na tarde desta sexta, o secretário da Casa Civil, André Moura, alertou para a importância de a população se informar com cautela sobre o vírus:
— Estamos vivendo uma onda de verdadeiras fake news sobre o coronavírus — observou.
O Brasil tem 182 casos suspeitos de coronavírus, de acordo com o boletim sobre o Covid-19 divulgado ontem pelo Ministério da Saúde. O levantamento aponta ainda que 71 suspeitas foram descartadas. Até agora há apenas um caso confirmado, de um brasileiro de 61 anos que esteve na Itália e está em quarentena dentro da própria casa.
Igreja Católica suspende aperto de mão
A Diocese de Nova Iguaçu, na Baixada, recomendou que, nas missas, sejam suspensos os apertos de mão e os abraços na entrada dos fiéis. A lista de orientações inclui a higienização das mãos dos celebrantes da comunhão, evitar o gesto de dar as mãos durante a oração do Pai Nosso; a supressão do abraço de paz, e que a hóstia seja recebida nas mãos pelos fiéis, e não diretamente na boca.
A inteção das medidas, propagadas por diversas arquidioceses e dioceses da Igreja Católica no país, visam evitar contágio do coronavírus durante as celebrações.
A Arquidiocese do Rio recomenda também que as paróquias disponibilizem recipientes de álcool gel para que os celebrantes higienizem bem suas mãos.
sexta-feira, fevereiro 28, 2020
quinta-feira, fevereiro 27, 2020
sexta-feira, fevereiro 07, 2020
O PORTO DO RIO DE JANEIRO NO CONTEXTO DAS REFORMAS URBANAS DE FIN DU SIÈCLE (1874-1904)
* Paulo Reis
'Raras vezes a creação de uma cidade é resultado de causas fortuitas. Quer tenha sido rapida, quer lentamente desenvolvido, o grande centro de população é quasi sempre consequencia de circumstancias locaes favoraveis ao commercio, á industria, ou a uma e outra conjuntamente...' Luiz Raphael Vieira Souto
Inicio este ensaio com uma indagação: Que cidade queremos para os próximos anos, tendo em vista o seu processo de constituição física, social, política, econômica e cultural. As questões que hoje movem os urbanistas, sociólogos, geógrafos, economistas e historiadores estão contidas no tipo de cidade que temos e nos meios para superação dos problemas que são recorrentes, como violência, mobilidade, educação, saúde, moradia, esgotamento sanitário, lazer, cultura etc. Diante destas questões faz-se necessário uma reflexão acerca do processo histórico de construção da Cidade Rio, entendê-la sob o ponto de vista de sua totalidade é essencial para o debate que se coloca hoje sobre a Cidade que queremos.
1. O PORTO E A CIDADE
A região portuária é de grande importância para as reflexões acerca da questão da Cidade do Rio de Janeiro e seu processo histórico de transformação/modernização (1850-1920). A cidade pensada, a partir da segunda metade do século XIX, tem na região portuária sua maior preocupação que se revela no número de intervenções urbanísticas – o bota abaixo, reforma do porto, estruturação das linhas de bonde etc.
É uma região de grande densidade populacional e igualmente densa em volume de mercadorias que transitavam por este Porto, principalmente a partir da produção cafeeira do Vale do Paraíba, que em 1831 ultrapassou a produção do complexo açucareiro nacional, representando assim 26% do total das exportações do Brasil.
O complexo cafeeiro muda a Cidade do Rio de Janeiro, assim como o complexo açucareiro (1640-1690) e o complexo do ouro (1690-1790) igualmente mudaram a Cidade e sua gente . Seja do ponto de vista político com a transferência da capitalidade de Salvador para a Cidade Rio ou do territorial com o adensamento da população que traz reformas urbanísticas de caráter expansionista.
O complexo cafeeiro somado as políticas de fomento econômico do Império transformaram por completo o Porto e seu entorno, dando os contornos de uma ‘nova’ cidade que se espraiou em duas direções: a) São Cristóvão, Engenho Velho e Andaraí e b) Glória, Flamengo, Catete e Botafogo.
BENCHIMOL, em obra clássica sobre a temática, constata que na segunda metade do século XIX, o Porto do Rio de Janeiro já era um dos três mais importantes da América e o mais importante do Brasil. Assim sendo, não é por obra do acaso que a partir da década de 1850 houve um esforço por parte das autoridades políticas brasileiras em modernizar o Porto e, por conseguinte, a região do seu entorno, entendida como eixo dinâmico de expansão da Cidade e do Império.
Desde, pelo menos, a chegada da Família Real Portuguesa (1808) os Negociantes de Grosso Trato estabeleceram-se na praça mercantil do Rio de Janeiro, exercendo o controle do transporte de cabotagem, consolidando as ligações da Cidade Rio com as praças/portos da região sul e da região norte em um sistema agregador destes espaços. Soma-se ainda as tropas de mulas vindas de São Paulo, M5ato Grosso, Goiás e Minas Gerais que fazem do Porto do Rio o ponto de maior confluência de produtos do Império Português.
Cumpre exaltar que neste período há um processo de modernização da economia brasileira, consoante ao movimento mundial do capitalismo no que se convencionou chamar de 2ª Revolução Industrial. Podemos sintetizar esta modernização pela aprovação do Código Comercial de 1850 e a criação do segundo Banco do Brasil em 1853, tendo o empresário Irineu Evangelista (Barão de Mauá) como principal articulador do novo Banco e um dos grandes partícipes da construção do Código Comercial, junto com o ministro da Justiça Eusébio de Queirós. Cabe ainda ressaltar a Lei que impôs o fim ao trato negreiro em 1850, cujo autor é o mesmo Eusébio de Queirós Ministro da Justiça, com esta lei abriu-se o caminho para a modernização da matriz de trabalho brasileira, pari passo com o processo de transformações do modo de produção capitalista industrial em curso nas regiões mais dinâmicas economicamente (Inglaterra, França, EUA etc).
Com o fim do tráfico negreiro e a regulação comercial uma parte considerável do capital mercantil foi liberada para outras finalidades, como investimento em infraestrutura (logística para a produção e transporte do café), crédito para a produção agrícola, fomento de novas indústrias etc. A Lei de Terras de 1850 também contribuiu para esta segurança jurídica do complexo produtivo brasileiro, garantindo o fluxo de crédito para a expansão da produção cafeeira através de instituições bancárias nacionais e internacionais (principalmente inglesas).
Nas décadas de 1850 e 1860 a tônica será a modernização da Cidade Rio, com ênfase na região mais dinâmica economicamente: a zona central e portuária. Contudo, somente a partir de 1871, os primeiros resultados dos debates acerca da modernização da zona portuária saíram do papel com o lançamento da pedra fundamental do Armazém Docas D. Pedro II. Seguidamente, temos a instalação da Comissão de Melhoramentos em 1874, que veio atender a demanda por obras de modernização/adequação da cidade ao novo momento que se abriu. Havia capital e havia pessoas qualificadas para pensar a cidade, neste contexto de modernização.
Esta comissão foi formada sob os auspícios do ideal de higienização e limpeza das cidades, em conformação com o discurso europeu de cidade asséptica, racional, organizada, bonita, funcional e utópica (Hausmann). Fizeram parte desta comissão os engenheiros Jerônimo Rodrigues de Moraes Jardim, Marcelino Ramos da Silva e Francisco Pereira Passos.
2. A CIDADE E O CAFÉ: NOTAS ESPRESSAS
Havia um clima para 'modernizações' em todos os sentidos, incluindo as mudanças no campo urbanístico e logístico, que não previa apenas obras para o embelezamento e limpeza da cidade. Havia toda uma concepção de utilização racional dos espaços para incremento da economia, basilada então no complexo cafeeiro do Vale do Paraíba, que não viu uma modernização das técnicas produtivas, contudo a logística de transporte e acondicionamento foram amplamente modificados e melhorados dentro dos padrões internacionais exigidos à época. Estas modificações ou modernizações contribuíram diretamente na cadeia produtiva do café, resultando em mais rapidez, mais qualidade e mais lucratividade do produto da origem ao consumidor final.
Cabe frisar que cerca de 20% da mão-de-obra escrava do complexo cafeeiro, era comprometida com o transporte realizado por mulas que atravessavam o Vale do Paraíba em direção a Baixada Fluminense tendo, entre outras paragens Nova Iguaçu, que era um importante empório e entreposto comercial. Com o advento da ferrovia (1850/1860), este contingente de trabalhadores pôde ser deslocado para a atividade-fim do complexo cafeeiro: a lavoura. Já Nova Iguaçu entrou em decadência, pois já não havia mais os tropeiros e com sua ausência o comércio minguou, principalmente a venda de produtos de subsistência produzidos nos arredores de Nova Iguaçu.
A Cidade do Rio de Janeiro passou a se estruturar a partir do café, na adequação/modernização da região portuária e central, além da ampliação dos bairros nobres como Botafogo que abrigou dezenas de palacetes neoclássicos dos barões do café. A nobiliarquia brasileira morava na capital, assim como os grandes empresários que construíam casas suntuosas nas franjas do poder.
As questões como habitação, trabalho, produção, administração pública, cultura, lazer são colocadas à luz de um novo momento que se abre para o Rio de Janeiro, uma 'janela de oportunidades' cujos pilotos do processo de modernização da cidade são, em essência, engenheiros.
Corroborou com este clima uma série de intelectuais que refletiram sobre este momento a partir do papel que a Cidade Rio-capital já exercia no contexto nacional, integrando as regiões. No contexto internacional, como porto de recepção e distribuição de mercadorias nacionais e estrangeiras, era preciso ampliar e modernizar o processo mediante a escala produtiva do novo momento do capitalismo internacional.
LAMARÃO resume bem a questão da dinâmica econômica do Rio de Janeiro deste momento:
Centro exportador e importador, o Rio torna-se também ponto quase obrigatório de transferências e trânsito de mercadorias europeias e norte-americanas, alimentando um ativo comércio de cabotagem. (LAMARÃO, p. 55)
Considero o engenheiro André Rebouças um destes intelectuais. Ele pensou de maneira integrada o processo produtivo e a logística de transporte desta produção, a partir de um sistema complexo que envolvia ferrovias e portos que se voltavam para o Porto do Rio de Janeiro. Rebouças, dentre vários trabalhos realizados, foi o responsável pela concepção e construção do armazém Docas D. Pedro II, que seguiu o modelo inglês dos armazéns das Docas Rainha Vitória, a qual conheceu in loquo em viagem realizada a Londres.
Este modelo foi o precursor de um processo de modernização que envolveu a construção de galpões grandes e arejados rentes ao mar e com um atracadouro horizontal, que permitia a chegada de grandes embarcações. Foi realizado também, o rebaixamento do calado do mar e o aterramento de parte considerável da região portuária, modificando seu tortuoso traçado. Sistema de guindastes movidos à vapor substituíram o moroso processo de carga e descarga através de chatas e saveiros .
O sistema férreo foi integrado ao porto para facilitar o grande fluxo de mercadorias, assim como todo o complexo de estaleiros foi modernizado para atender a demanda crescente, na fabricação de embarcações ou na manutenção das naves que aportavam. Neste período (1850-1890) chegou-se a marca de 3 mil naves ao ano adentrando o Porto do Rio, consolidando-o como o principal porto brasileiro. Assim sendo, o complexo portuário não dava mais conta do volume de mercadoria, precisando assim de uma intervenção modernizadora que alavanca-se o processo de transporte, armazenagem, atracagem de naves maiores, carregamento das mercadorias, desburocratização para o despacho, enfim toda dinâmica do porto precisava ser modernizada. O mundo estava acelerando, na medida em que a economia ganhava uma escala jamais vista.
Além de Rebouças, cabe destaque para a Comissão de Melhoramentos da Cidade instalada em 1874. Esta comissão propôs uma reforma urbanística a partir do bairro Cidade Nova, tendo como base o Canal do Mangue, foco de diversos tipos de pestilências e via de integração dos importantes bairros de São Cristóvão, Engenho Velho e Andaraí, e da região portuária, que contava com uma população proletária crescente. O Plano Urbanístico que resultou do trabalho desta comissão previa o crescimento da cidade a partir de três grandes áreas: 1) Região Central e Portuária, 2) São Cristóvão, Andaraí e Engenho Velho, 3) Glória, Catete, Botafogo e Flamengo.
Na década de 1870, o complexo cafeeiro já ultrapassava 50% das exportações brasileiras, concomitantemente foi inaugurada uma linha permanente de paquetes à vapor que fazia o trajeto Londres-Rio de Janeiro. Mais do que a pontualidade, quase britânica, que os navios à vapor promoveram ao transporte, esta 'nova' forma de geração de energia foi essencial em uma conjuntura de escassez de mão de obra negra escravizada no Rio de Janeiro, lembrando que além da cessação do trato africano em 1850, no ano de 1871 instituiu-se a Lei do Ventre Livre. Os braços dos africanos, em essência, foram deslocados para a produção cafeeira devido ao fim do tráfico negreiro e do real término da escravidão africana reforçada pela Lei do Ventre Livre, um processo inexorável em um mundo capitalista em desenvolvimento.
Portanto, era preciso adequar à nova realidade que se abrira em um Brasil capitalista e com uma matriz de trabalho livre. Este processo de libertação gradual dos africanos abriu uma questão importante, o fluxo de libertos para a Cidade Rio, mais precisamente, para a região portuária aumentava exponencialmente ano a ano. Redundando em uma concentração paulatina de negros/pobres nesta região que adensou sua população rapidamente e de maneira desordenada a margem de qualquer tipo de estrutura habitacional digna.
Já sobre o ponto de vista tecnológico a energia à vapor consolidou, assim, a necessidade premente de modernização do processo de transporte de mercadorias que não cabia a penas ao Porto e sim a toda logística que envolvia este processo: estrada de ferro, galpões, maquinário, indústria naval etc. Logística esta, essencialmente movida pelos braços de trabalhadores livres e assalariados.
Já na virada do século XX a energia elétrica provocou outro salto em termo de desenvolvimento da região com a adoção da rede de bondes que consolidou os vetores da expansão da cidade, além dos guindaste elétricos. Neste momento o Rio de Janeiro não é mais a cidade do café, passa ser a cidade da indústria têxtil por excelência, destacadamente a Fábrica Bangu é o grande exemplo deste processo que contou com todo o aparato logístico do Porto que vem sendo modernizado desde 1870 e teve seu ápice durante o governo de Pereira Passos com a reforma de 1904 que transformou por completo o Porto e a Cidade.
BIBLIOGRAFIA
ALENCASTRO, Luiz Felipe. O Trato dos Viventes: formação do Brasil no
Atlântico Sul – séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, (1711). Belo Horizonte: Itatiaia e São Paulo: Edusp, 1982.
ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. Rio de Janeiro, Contraponto: São Paulo, UNESP, 1996.
BEAUCLAIR, Geraldo. Raízes da Indústria no Brasil: A pré-indústria fluminense 1808-1860. Rio de Janeiro: Studio F&S, 1992.
BENCHIMOL, J.L. Pereira Passo: Um Hausmann tropical. Rio de Janeiro, Biblioteca Carioca, 1992.
BOXER, Charles R. O império marítimo português (1415-1825). Trad.
Anna Olga de barros Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II. Lisboa /São Paulo, Publicações Dom Quixote e Livraria Martins Fontes, 1980.
CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro Setecentista: A vida e a construção da cidade (da invasão Francesa até a chegada da Corte). Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
FRANÇA, Eduardo D’Oliveira. Portugal na época da Restauração. São Paulo: Editora HUCITEC, 1997.
FRAGOSO, João L. R. Homens de Grossa Aventura: Acumulação e hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2º ED. rev. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
LAMARÃO, STN. Dos Trapiches ao Porto. Rio de Janeiro, Biblioteca Carioca, 2006.
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