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segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Um olhar sobre o saber histórico

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O ensino de História está, quase sempre, condicionado a uma concepção ou corrente historiográfica. Isso quer dizer que o conhecimento histórico e o ensino da matéria se modificaram ao longo dos tempos.
Antes de constituir-se como disciplina escolar, a História se confundia com a história bíblica e dos deuses. Por isso, da Idade Média até o século 17 evidenciou-se uma História ancorada na religião. Embora a história já fosse ensinada pelos jesuítas desde o século 17, foi somente no século 18 que ela ganhou contornos delimitados como conhecimento objetivamente elaborado e teoricamente fundamentado.
A partir da fundação do Colégio Pedro II e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, a História, enquanto conteúdo de ensino específico, passa a ser difundida no Brasil. O IHGB surgiu como o centro pensante, elaborando um parâmetro de história nacional oficial, e o Colégio Pedro II foi o executor desses parâmetros, influenciados pelo positivismo e pelo catolicismo.
Nessa perspectiva, cabia a tais instituições elaborar uma identidade nacional, visto que naquele momento o Brasil enfrentava um momento delicado, marcado por instabilidade social e política (crise da Independência). Fazia-se necessário induzir o povo a colaborar com a estrutura social e política vigente. O objetivo dessa disciplina era despertar o patriotismo necessário para a emergência de uma identidade nacional.

Nacionalismo e culto aos “heróis”
No período republicano, foi legado à educação o status de redentora da nação. Por conseguinte, buscou-se, a partir do ensino de História, fortalecer o espírito nacionalista necessário para a sedimentação da identidade nacional, abrindo espaço para as discussões concernentes a questões educacionais. Destacou-se a proposta do pedagogo José Veríssimo, o qual acreditava que, para o projeto político da República consolidar-se, era preciso um sistema educacional abrangente e perpetuador de um patriotismo e de um pertencimento nacional. Ao ensino de História cabia priorizar o estudo dos feitos e da biografia dos grandes cidadãos brasileiros. Assim, na I Conferência Nacional de Educação, em 1927, discutiram-se os caminhos para se construir uma identidade nacional comum, a partir do ensino de História, da moral e do civismo.
Apesar dos diversos esforços feitos pelo governo republicano, não se conseguiu construir uma educação sistemática e universalizante. Esse projeto só foi alcançado no governo de Getúlio Vargas, quando houve a consolidação de uma memória nacional e patriótica, contemplando o culto aos heróis e a ênfase nas tradições nacionais nas aulas de História.

História e ditadura
Durante todo o regime militar brasileiro (1964-1985), a disciplina foi usada como mecanismo de manipulação social e controle da ordem social vigente. Sua missão era neutralizar qualquer tipo de crítica ao Estado.
No período da ditadura militar, a História, como disciplina escolar autônoma, foi diluída e passou a coexistir com a Geografia sob a intitulação de Estudos Sociais. Não era intenção formar um aluno crítico e reflexivo, e sim um aluno submisso e passivo ao autoritarismo do Estado.
Com a redemocratização política, o ensino de História passou a ser pensado para instruir o aluno a criticar toda forma de repressão e autoritarismo. Partindo desse pressuposto, infere-se que, a partir de 1980, o ensino de História toma novas direções. Passa a ser uma arma contra o autoritarismo e qualquer tentativa de censura – portanto, um cidadão em consonância com o contexto da época.
Enquanto disciplina escolar no Brasil, a História, desde sua gênese, foi usada como justificação do poder da ordem dominante, como propagadora de uma determinada ideologia. Por isso, é nossa tarefa batalhar por uma História que leve os estudantes a compreender o contexto em que estão inseridos, permitindo que ultrapassem as barreiras da dominação.

Autora: Maria de Lourdes Abrantes Sarmento, graduanda do curso de História da Universidade Federal de Campina Grande, PB.
E-mail: lourdes.abrantes@yahoo.com.br

Sugestões de Leitura
O ensino de História: revisão urgente, de Conceição Cabrini. São Paulo: Brasiliense, 2004.
História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas, organizado por Leandro Karnal. São Paulo: Contexto, 2010.

Sugestões de Sites
Tempo, Revista Digital de História da UFF: www.historia.uff.br/tempo
Rede social voltada para o ensino da história: www.cafehistoria.ning.com

Atividade
História é coisa de fofoqueiro?
Por que aprender sobre tanta gente morta se estamos vivos? Estudar história influencia nossas escolhas?

Essas e outras dúvidas estão presentes na cabeça dos jovens, então, que tal aproveitar o começo do ano e debater sobre a importância de estudar História?
Pode-se assistir ao vídeo Por que estudar história? e responder essas e outras perguntas junto com os estudantes. Além de refletir, poderemos colher dicas de interesse dos jovens ao longo do ano.

domingo, fevereiro 14, 2016

Ainda vale a pena ser professor?

O cenário é desanimador: cada vez menos jovens se interessam pela licenciatura, e cresce assustadoramente o número de profissionais que abandonam suas carreiras docentes.
Isso reflete as dificuldades enfrentadas na profissão, que ultrapassam os limites da sala de aula, do ofício propriamente relacionado ao aluno. A desvalorização do profissional, os baixos salários, os planos de carreira não atrativos, a escassez de recursos humanos, físicos e tecnológicos nos espaços escolares e a falta de incentivo para uma formação continuada podem ser determinantes no desinteresse pela carreira. No entanto, arrisco dizer que poucos fatores inquietam mais um professor do que a rotina desgastante de quem precisa substituir, na maioria das vezes, o papel de uma família ausente, do que as dúvidas sobre o seu verdadeiro papel na atualidade e os abismos existentes entre a formação que recebemos academicamente e o cenário de vida real de todo o sistema educacional.
Educar para a diversidade
O papel do professor vem, gradativamente, sofrendo alterações, assim como toda a sociedade em que vivemos. De centralizador de todo o processo educacional, de possuidor inatingível das verdades do conhecimento, o professor passa a ser um facilitador, um mediador do processo de aprendizagem, cedendo cada vez mais espaço em um campo que era incontestavelmente seu, para olhar o seu aprendiz com o intuito de ser um mediador inspirador, e não mais um impositor da vontade do saber.
O professor contemporâneo tem que ter em mente que é um sujeito ativo nas mudanças da realidade em que opera, apontando possibilidades, possibilitando mudanças. Tem que ter olhares múltiplos para o meio onde atua. Mais do que disciplinas componentes do currículo escolar, temos a difícil missão de facilitar um conhecimento que visa a educação para a diversidade, que respeita os direitos humanos, possibilitando o pleno desenvolvimento da cidadania dos nossos alunos.

Por que acreditar?

Respiro fundo antes de começar a elencar tantas razões que me fazem acreditar na docência: vale a pena contribuir para a mudança de mentalidade de todo o meio social que envolve a escola onde eu trabalho; seguir semeando sonhos, empoderando os jovens e encorajando-os a buscarem seu espaço no mundo. Vale a pena demonstrar que o aluno é tão possuidor do conhecimento quanto eu, compartilhando daquele mesmo espaço, construindo experiências e desenvolvendo suas potencialidades. Vale a pena sair da minha zona de conforto e não me conformar com o que não funciona; o desafio de inovar, encantar, entusiasmar e incentivar o meu aluno a refletir, usar a criatividade e habilidades para se posicionar criticamente no mundo. Vale a pena reconhecer que meu trabalho, quando possibilita o desenvolvimento integral do educando, respeita as proposições do Estatuto da Criança e do Adolescente, no que diz respeito ao acesso e à permanência desse aluno na escola, espaço onde qualquer educando deve se sentir seguro e protegido. Vale a pena proporcionar diariamente a interação entre o conhecimento científico e o contexto social, para que a aprendizagem de conteúdos seja uma aprendizagem significativa, valorizando o universo do estudante.
Ser professor em tempos de fundamentalismos, de incitação ao ódio, da desvalorização das diferenças, de descrença na carreira docente, é manifestar coragem, força e resistência, mantendo o ideal de que, através da educação, podemos transformar pessoas para que, então, elas possam transformar o mundo, como diria Paulo Freire. Vale a pena contribuir para a transformação de uma realidade, questionando o que está imposto, propondo novas ideias, respeitando as especificidades e a liberdade de cada um. Se as condições de trabalho ainda não são as ideais e engessam a minha prática pedagógica de alguma forma, vale a pena me posicionar politicamente e lutar por melhorias para toda a minha categoria, pois professor que está lutando, também está ensinando. Vale a pena, em tempos de tanto individualismo, reforçar e assumir diariamente que a educação é um compromisso de todos.
Tenho a prazerosa certeza de que consigo tocar positivamente a vida de muitas pessoas, porque, acima de tudo, respeito meu aluno como ser humano. Quando consigo tocar um coração, quando vejo no olhar do meu aluno a força e a vontade de aprender, uma pequena parte do sistema, ainda tão cheio de falhas, se abre para mim. Vale a pena ser professor porque cada dia mais me certifico de que tenho a oportunidade de reassumir meu compromisso, contribuindo para um futuro melhor para a infância e a juventude brasileira.
 
Cassia Serpalicenciada em Letras - inglês pela PUCRS, professora da rede pública e de aulas particulares em preparação para exames.

artigo publicado na edição 461, outubro de 2015 do Jornal Mundo Jovem.

sábado, fevereiro 13, 2016

Rebeldia jovem para desacomodar o mundo



A rebeldia nos jovens não é um crime. Pelo contrário: é o fogo da alma que se recusa a conformar-se, que está insatisfeito com o status quo, que proclama querer mudar o mundo e está frustrado por não saber como.
Controlar ou emancipar a juventude: eis o dilema de nossos tempos. O inconformismo, que caracteriza os jovens, é a força renovadora que move o mundo, mas também algo que incomoda os já acomodados. Acomodados, despreparados ou desconhecendo a realidade do universo juvenil, muitos de nós desqualificamos a juventude, vendo-a como um incômodo ou como uma fase de passageira rebeldia. Ao invés de emancipar, desejamos controlar, dominar, moralizar.
Provocando mudanças
Bravamente, ao longo dos tempos, os jovens resistiram e mantêm acesa a ideia de mudar o mundo. Desejam, profundamente, que ideais e mundo sejam uma nota só. Seus sonhos são suas ideias em teimosia. Os jovens têm consciência de que precisam controlar o seu “fogo ardente”. Mas desejariam que este controle fosse deles, não daqueles que representam qualquer autoridade (pais, professores, psicólogos, legisladores, juízes, polícia). Rejeitam serem pensados pelos outros.
A rebeldia é o sinal de que a juventude continua sadia, cumprindo com o seu papel de provocadora de mudanças. A rebeldia, aos olhos da Filosofia, é atitude de quem quer ser sujeito de sua história, não seu coadjuvante. Sim, porque a Filosofia, como o inconformismo, motiva a cada um de nós na busca de seus próprios caminhos.
É preciso compreender a juventude como uma categoria social, que varia no tempo, de sociedade para sociedade e segundo as diferenças internas das sociedades. “Por isso, a definição do que é juventude tem que se fazer na contextualização histórica dos jovens que se quer compreender. Outra ideia fundamental é a de que a juventude é vivida de modo distinto segundo as condições econômicas, culturais, de raça, gênero etc.”, como aponta a coleção Ofício de Professor: aprender mais para ensinar melhor. Neste aspecto, é preciso aumentar a disposição para o diálogo e a escuta com os jovens de nosso tempo, procurando compreender os desejos, sonhos, medos e angústias que os movem. A busca pelo conceito de juventude deve ser superior aos nossos preconceitos.
Pensamento próprio
O filósofo Sócrates, na Grécia Antiga, acreditando na emancipação humana, desenvolveu o método da maiêutica. Concebeu o papel dos sábios a um trabalho de parteira (que ajudam a dar à luz). Ele acreditava que a verdade e o conhecimento estão com cada um e cada uma de nós, e cada indivíduo pode descobrir as razões e verdades que motivam seu viver. Não por acaso, foi considerado um incômodo para Atenas. Uma das razões de sua condenação à morte foi insuflar a juventude a pensar por sua conta.
Muitas iniciativas da sociedade, de ONGs, entidades e igrejas surgiram porque compreenderam que o jovem quer, precisa e pede o nosso apoio. E têm se dedicado ao trabalho com a juventude, empregando o protagonismo juvenil, a arte e a espiritualidade como formas de potencializar as energias da juventude. Seus êxitos comprovam que com oportunidades a juventude toma os melhores caminhos. Aliás, os jovens nunca dispensaram atitudes de apoio, escuta, compreensão e orientação. E gostam de ser desafiados pelos adultos.
A rebeldia tem causas que a justificam como atitude altiva e saudável. Jovens e adultos, no entanto, precisamos descobrir quais são as causas pelas quais vale uma vida. A violência e a agressão, em forma de rebeldia, não podem ser toleradas. Por sua vez, rebeldia saudável e protagonismo são ingredientes indispensáveis para fomentar as renovações de que a sociedade precisa. Mas a opção é da sociedade: apostar e empenhar-se na emancipação e inclusão da juventude ou considerá-la como constante ameaça contra a ordem social. Cada opção tem seu preço.



Nei Alberto PiesProfessor e ativista de direitos humanos, Passo Fundo, RS.pies.neialberto@gmail.com

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Os equívocos do PT e o sonho de Lula


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* Leonardo boff
 Durante quatro a cinco décadas houve vigorosa movimentação das bases populares da sociedade discutindo que “Brasil queremos”, diferente daquele que herdamos. Ele deveria nascer de baixo para cima e de dentro para fora, democrático, participativo e libertário. Mas consideremos um pouco os antecedentes histórico-sociais para entendermos por quê esse projeto não conseguiu prosperar.
É do conhecimento dos historiadores, mas muito pouco da população, como foi cruenta a nossa história tanto na Colônia, na Independência como no reinado de Dom Pedro I, sob a Regência e nos inícios do reinado de Dom Pedro II. As revoltas populares, de mamelucos, negros, colonos e de outros foram exterminadas a ferro e fogo, a maioria fuzilada ou enforcada. Sempre vigorou espantoso divórcio entre o Poder e a Sociedade. Os dois principais partidos, o Conservador e o Liberal, se digladiavam por pífias reformas eleitorais e jurídicas, porém jamais abordaram as questões sociais e econômicas.
O que predominou foi a Política de Conciliação entre os partidos e as oligarquias mas sempre sem o povo. Para o povo não havia conciliação mas submissão. Esta estrutura histórico-social excludente predominou até aos nossos dias.
No entanto, pela primeira vez, uma coligação de forças progressistas e populares, hegemonizadas pelo PT, vindo de baixo, chegou ao poder central. Ninguém pode negar o fato de que se conseguiu a inclusão de milhões que sempre foram postos à margem. Far-se-iam em fim as reformas de base?
Um governo ou governa sustentado por uma sólida base parlamentar ou assentado no poder social dos movimentos populares organizados.
Aqui se impunha uma decisão. Na Bolívia, Evo Morales Ayma buscou apoio na vasta rede de movimentos sociais, de onde ele veio como forte líder. Conseguiu, lutando contra os partidos. Depois de anos, construiu uma base de sustentação popular, de indígenas, de mulheres e de jovens a ponto de dar um rumo social ao Estado e lograr que mais da metade do Senado seja hoje composta por mulheres. Agora os principais partidos o apoiam e a Bolívia goza do maior crescimento econômico do Continente.
Lula abraçou a outra alternativa: optou pelo Parlamento no ilusório pressuposto de que seria o atalho mais curto para as reformas que pretendia. Assumiu o Presidencialismo de Coalizão. Líderes dos movimentos sociais foram chamados a ocupar cargos no governo, enfraquecendo, em parte, a força popular.
Para Lula, mesmo mantendo ligação com os movimentos de onde veio, não via neles o sustentáculo de seu poder, mas a coalizão pluriforme de partidos. Se tivesse observado um pouco a história, teria sabido do risco desta política de Coalização que atualiza a política de Conciliação do passado.
A Coalizão se faz à base de interesses, com negociações, troca de favores e concessão de cargos e de verbas. A maioria dos parlamentares não representa o povo mas os interesses dos grupos que lhes financiam as campanhas. Todos, com raras exceções, falam do bem comum, mas é pura hipocrisia. Na prática tratam da defesa dos bens particulares e corporativos. Crer no atalho foi o sonho de Lula que não pode se realizar.
Por isso, em seus oito anos, não conseguiu fazer passar nenhuma reforma, nem a política, nem a econômica, nem a tributária e muito menos a reforma agrária. Não havia base.
A “Carta aos Brasileiros” que na verdade era uma Carta aos Banqueiros, obrigou Lula a alinhar-se aos ditames da macroeconomia mundial. Ela deixava pouco espaço para as políticas sociais que foram aproveitadas tirando da miséria 36 milhões de pessoas. Nessa economia, o mercado dita as normas e tudo tem seu preço. Assim parte da cúpula do PT, metida nessa Coalizão, perdeu o contato orgânico com as bases, sempre terapêutico contra a corrupção. Boa parte do PT traiu sua bandeira principal que era a ética e a transparência.
E o pior, traiu as esperanças de 500 anos do povo. E nós que tanta confiança depositávamos no novo, com as milhares comunidades de base, as pastorais sociais e os grupos emergentes… Elas aprenderam articular fé e política. A mensagem originária de Jesus de um Reino de justiça a partir dos últimos e da fraternidade viável, apontava de que lado deveríamos estar: dos oprimidos. A política seria uma mediação para alcançar tais bens para todos. Por isso, as centenas de CEBs não entraram no PT; fundaram células dele e grupos, como instrumento para a realização deste sonho.
O partido cometeu um equívoco fatal: aceitou, sem mais, a opção de Lula pelo problemático presidencialismo de coalizão. Deixou de se articular com as bases, de formar politicamente seus membros e de suscitar novas lideranças.
E aí veio a corrupção do “mensalão” sobre o qual se aplicou uma justiça duvidosa que a história um dia tirará ainda a limpo. O “petrolão” pelos números altíssimos da corrupção, inegável, condenável e vergonhosa, desmoralizou parte do PT e parte das lideranças, atingindo o coração do partido.
O PT deve ao povo brasileiro uma autocrítica nunca feita integralmente. Para se transformar numa fênix que ressurge das cinzas, deverá voltar às bases e junto com o povo reaprender a lição de uma nova democracia participativa, popular e justa que poderá resgatar a dívida histórica que os milhões de oprimidos ainda esperam desde a colônia e da escravidão.
Apesar de tudo, e quer queiramos ou não, o PT representa, como disse o ex-presidente uruguaio Mujica, quando esteve entre nós, a alma das grandes maiorias empobrecidas e marginalizadas do Brasil. Essa alma luta por sua libertação e o PT redimido continua sendo seu mais imediato instrumento.
Quem cai sempre pode se levantar. Quem erra sempre pode aprender dos erros. Caso queira permanecer e cumprir sua missão histórica, o PT faria bem em seguir este percurso redentor.
*Leonardo Boff, escreveu: Depois de 500 anos que Brasil queremos, Vozes. Petrópolis 2000

domingo, fevereiro 07, 2016

O povo luta contra o aumento das passagens

RAFAEL GOMES PENELAS

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SÃO PAULO

2016 foi aberto com a Juventude Combatente e os trabalhadores nas ruas contra o criminoso aumento das passagens de ônibus, metrô e trem, que subiram para absurdos R$ 3,80. Das escolas ocupadas às ruas, as batalhas da juventude não tiveram interrupções com o fim das ocupações. O debate da luta contra o aumento das passagens, que já fermentava entre os estudantes, ganhou as ruas em novas lutas e, até o fechamento desta edição de AND, manifestações já haviam ocorrido nos dias 8, 12 e 14 de janeiro.
No dia 8 houve confronto. Após a concentração em frente ao Theatro Municipal com cerca de 15 mil pessoas, os manifestantes seguiram em direção ao Largo do Paiçandu, onde deram uma volta no terminal rumo a Avenida 23 de Maio. Após passar o Vale do Anhangabaú, a tropa de choque da PM atacou. Muitos tentavam inutilmente se refugiar da chuva de bombas nos bares. A Juventude Combatente não recuou, se postou na linha de frente da manifestação, enfrentou a polícia, montou barricadas e sustentou o protesto.
— O ano já começou com luta! A população não aguenta mais tanta roubalheira, a saúde caindo aos pedaços, o Alckmin fechando escolas e agora vem este aumento de passagem. Eles estão brincando com a cara do povo. Se querem provocar a população, então terão que nos enfrentar. Não deixaremos esse aumento passar em branco — protestou o comerciante Fábio Souza, que foi às ruas em 8/1.
Em 12 de janeiro, novo protesto. Mais uma vez os manifestantes foram covardemente atacados pela tropa de choque da PM de Geraldo Alckmin (PSDB) e Fernando Haddad (PT). O ato partiria da Av. Paulista até o Largo da Batata, mas, cercado pelos quatro cantos pela PM, foi impossibilitado de sair e os manifestantes foram brutalmente agredidos. Muitas pessoas, inclusive que não participavam do protesto, ficaram feridas pelos cassetetes, bombas de efeito moral e tiros de bala de borracha. Foram inúmeros relatos de feridos, incluindo uma gestante que ficou com a costela fraturada após receber um chute de um policial e um jovem que corre o risco de perder um dedo devido aos estilhaços de uma bomba. As cenas da selvageria da PM correram o mundo e ganharam destaque, inclusive, nos noticiários internacionais.
— A PM diz que cumpriu a lei, mas todo mundo viu o total desrespeito ao livre direito de manifestação. Geraldo Alckmin e Fernando Haddad demonstraram que farão de tudo para garantir o lucro da máfia dos transportes, que financia suas campanhas eleitorais. E esse ano é ano de eleição. Mesmo com tamanha repressão, nossa luta não vai parar. A Globo está nos chamando de vândalos, mas o povo não vai cair nessa mentira de novo, porque ele sabe que vândalo é quem aumenta a passagem, vândalo são estes governos. E a juventude tem o direito de se defender da forma que for! — afirmou a estudante secundarista Larissa Rocha em depoimento concedido em 13/1.
No dia 14, dois grandes protestos foram realizados: um no Centro, com concentração no Teatro Municipal, e outra em Pinheiros, no Largo da Batata. Ambos contaram com a participação de milhares de pessoas, que levaram faixas, cartazes e palavras de ordem denunciando o aumento da tarifa.
Nas concentrações, mais uma prova do fascismo escancarado das gerências estadual e municipal de PSDB e PT: todos que passavam por estas regiões da cidade foram revistados pelos agentes policiais. E à noite, quando os manifestantes voltavam para casa, a PM atacou próximo à estação Consolação do metrô. Jovens foram presos e alguns ficaram feridos. Outras manifestações menores foram realizadas nas primeiras semanas de janeiro com bloqueios de rua em outras regiões de São Paulo e novos protestos estão marcados para acontecer.

RIO DE JANEIRO

Na capital fluminense, centro da contrapropaganda dos jogos olímpicos, onde a roubalheira do que é público ultrapassou todos os limites do “debaixo dos panos” e saltou aos olhos de todos com o caos da saúde pública, as passagens dos ônibus sofreram aumento de R$ 3,40 para R$ 3,80.
Na tarde de 8 de janeiro, milhares de pessoas tomaram as ruas do Centro em um grande protesto. Milhares de manifestantes se concentraram na Cinelândia e, passando pela Assembleia Legislativa, seguiram até a Central do Brasil, a tradicional estação de trem mais movimentada da cidade.
 No encerramento do ato, teve início um confronto com a Guarda Municipal. Professores, estudantes e trabalhadores da região da Central do Brasil não arredaram pé das ruas e sustentaram o combativo protesto, enfrentando sem temor a tropa de choque da Polícia Militar, que interveio. Num determinado momento, manifestantes foram covardemente atacados pela cavalaria montada da PM, o que não foi suficiente para conter a fúria das massas. Policiais montados em cavalos e motocicletas foram cercados pelas massas e forçados a recuar. Muitos camelôs se somaram à resistência e colocaram em dia toda a raiva sentida diariamente com a repressão e os roubos de seus produtos pela Guarda Municipal, que aumentou vertiginosamente nos últimos meses na região central do Rio.
As câmeras de AND registraram os acontecimentos.
— Realmente, a revolta é grande. Esses jovens têm razão em protestar. Eu mesma, na semana passada, fui levar minha mãe, que sofre de pressão alta, ao médico, e não encontrei um hospital para atendê-la. Na UPA, alegaram que ela não era caso de morte, e mandaram eu procurar o [Hospital Municipal] Souza Aguiar. Não temos saúde, o custo de vida tá caro demais, e agora aumentam a passagem. Esses garotos estão certos mesmo! — afirmou a comerciante Fátima Carvalho, moradora da Zona Norte do Rio de Janeiro, que passava pela Avenida Presidente Vargas durante o ato.
— A juventude está com disposição de luta e em 2016 isso vai ser confirmado. Iremos às ruas protestar pelos direitos do povo. No início desta manifestação, os oportunistas eleitoreiros fizeram de tudo para o ato não ir até a Central, eles têm medo da revolta popular. Mas não conseguiram. Fomos até a Central e mostramos para a população, os trabalhadores e trabalhadoras, que, se os governos Eduardo Paes e Pezão [PMDB], aliados do PT, quiseram aumentar a passagem, eles vão ter que enfrentar a fúria popular — disse uma estudante secundarista.
No dia 15 de janeiro, mesmo debaixo de um temporal, cerca de mil pessoas voltaram a tomar as ruas da cidade. Novamente da Cinelândia à Central do Brasil, eles agitaram com combatividade a palavra de ordem ‘Não vai ter aumento!’.
Uma grande faixa da Frente Independente Popular (FIP-RJ) exclamava ‘Contra o aumento e a repressão! Não vote, lute pela revolução!’ e o bloco combativo presente no ato — que contou com a participação de ativistas do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), da Unidade Vermelha, do Movimento Feminino Popular (MFP), da Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC), do Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação (Moclate), entre outras organizações —, do início ao fim, entoou canções de luta a plenos pulmões. 
Ao fim do protesto, PMs iniciaram agressões para tentar dispersar os manifestantes ferindo vários deles. Uma mulher foi ferida na canela por um estilhaço de bomba de efeito moral e teve que ser socorrida pelo Corpo de Bombeiros. Representantes de coletivos de imprensa popular foram atacados por policiais e um deles, que transmitia ao vivo, teve seu celular furtado por um PM. Uma professora foi presa acusada de desacato por ter qualificado como racista a conduta de um policial ao revistar a bolsa de um morador de rua.
Os vídeos das manifestações na capital fluminense podem ser vistos no canal de AND no YouTube. Além de novos atos, ativistas preparam o Bloco Pula Roleta para o dia 9 de fevereiro.

BELO HORIZONTE

Na capital mineira, a tarifa subiu de R$ 3,40 para R$ 3,70. O Comitê de Apoio de BH esteve presente na manifestação de 8 de janeiro e, em relato enviado a nossa redação, afirmou que “Como é característico, a prefeitura de Belo Horizonte decretou o aumento das passagens na última semana do ano de 2015, momento em que a cidade está mais vazia devido ao período de férias. Esse foi o segundo aumento consecutivo da tarifa em 2015, considerado ilegal por ser acima da inflação e por um dito ‘acordo’ feito entre as empresas de ônibus e a prefeitura em 2013 que, inicialmente, faria com que as passagens não tivessem um aumento tão alto. Esse acordo, que dava direito a uma série de isenções de impostos às empresas, proporcionou um lucro de mais de R$ 80 milhões aos donos, já que esse dinheiro deveria ser pago em tributos à prefeitura. O ato, que começou às 18h, contou com a participação de cerca de 2.000 pessoas”. No mesmo dia, um protesto foi realizado no Centro do município de Três Corações. Também em Nova Lima (MG) ocorreram protestos. Em 15 de janeiro, uma nova manifestação tomou as ruas de Belo Horizonte e os manifestantes queimaram uma catraca simbólica.

A LUTA CONTINUA

O povo se levanta desde os primeiros dias de 2016 não só contra o aumento das passagens, mas contra o aumento de todos os impostos, o caos na saúde pública, a destruição da educação, a roubalheira criminosa das riquezas nacionais, o circo parlamentar e contra toda a podridão do velho Estado. Assim começa o ano da farsa eleitoral em nível municipal, o ano dos jogos olímpicos dos monopólios. Um ano de grandes batalhas para o nosso povo.
Enquanto esta edição de nosso jornal é concluída, inúmeros outros atos estavam convocados em São Paulo, Rio e outras capitais. Em inúmeras cidades, há ameaças de novos aumentos. Continuaremos acompanhando as manifestações e divulgando as informações em tempo real em nossa fan page no Facebook (/jornalanovademocracia).

sábado, fevereiro 06, 2016

À PROCURA DE LEFF


* Rafael Cariello
Como o Economista Americano ofereceu uma explicação inovadora para o Brasil e depois desapareceu
Em seus textos, Leff argumenta que a chave para entender por que o Brasil se tornou um país relativamente pobre, com renda per capita muito abaixo dos níveis alcançados pela Europa e pelos Estados Unidos, era para ser encontrada no século 19 - não antes, não depois.
Até a Revolução Industrial no final do século 18, as taxas de desenvolvimento econômico não eram muito diferentes em todo o globo, tem sido estimado que a renda per capita dos Estados Unidos foi semelhante ao do Brasil por volta da virada do século 18. Já em 1890 a renda per capita nos Estados Unidos era mais do que quatro vezes a do Brasil.
Todos os sinais parecem indicar que Leff estava certo, e uma das principais razões para o "atraso" do Brasil no século 19 foi a falta de integração econômica causada pelos elevados custos de transporte.
Como as redes ferroviárias espalhados por todo o país, passando de cerca de 1.000 km de pista no início da década de 1870 para 26.000 em 1914, e com a consequente queda nos custos de transporte, que "reduziu os preços que os consumidores pagavam pelas mercadorias, aumentou os preços que os produtores receberam , melhorou a mobilidade do trabalho, impulsionou a produção ea renda, e lançou as bases para mudanças estruturais fundamentais que surgiram na primeira metade do século XX "
Além de tudo isso, depois de 1850 novas barreiras foram erguidas ao acesso à terra no Brasil. Naquele ano, cada pedaço de terra que não foi registado ou ainda em uso tornou-se propriedade do Estado. E isso só poderia ser transferida para novos proprietários se eles compraram a terra diretamente do governo, com o dinheiro na frente - um obstáculo sério para a maioria da, população pobre gratuito, bem como para os imigrantes que chegam ao país. Aqueles que vêm em - e havia muitos deles - tinham poucas opções. Eles podem tentar ocupar terras com pouco valor, longe de grandes mercados, com elevados custos de transporte e baixas margens de lucro. Ou eles poderiam vender seu trabalho mais barato para aqueles que já tinham terra.
Estranho que um economista neoclássico - usando modelos e métodos quantitativos, que parte da esquerda no Brasil ainda considera intrinsecamente conservadora, voltou seu olhar para as raízes históricas da baixa renda per capita e desigualdade brasileira. Esse problema, aliás, não tinha estado no centro do debate sobre a formação econômica do Brasil - o foco tinha permanecido mais sobre as relações entre o Brasil como um todo e na Europa.
A análise de Leff era completamente diferente da abordagem encontrado nas obras clássicas sobre a "formação econômica" do Brasil de Caio Prado Jr., Celso Furtado, e Fernando Novais. Em vez de olhar para as fontes de "atraso" do país, em sua relação com a Europa - nas trocas comerciais que supostamente beneficiaram da metrópole em detrimento dos fazendeiros locais - o autor americano chamou a atenção para os problemas dentro economia e as decisões do Brasil pela elite política que manteve renda per capita baixa e elevada desigualdade.
Leff mencionou alguns "documento da ONU" que recomenda prestar atenção para o Brasil, uma vez que o país já teve uma importante indústria de bens de capital. Houve também alguma coisa sobre "Argentina não ser um país multicultural," se eu entendi corretamente. Olhei para a Sra Leff, que não parecem ter entendido mal. Finalmente, ela disse: "É como eu disse. Meu marido estava muito interessado em comparar o desenvolvimento do Brasil e dos Estados Unidos.

A política e o Carnaval na visão de Haroldo Costa


Da disseminação dos ideais abolicionistas e republicanos, passando pelo nacionalismo de Getúlio Vargas, a política brasileira sempre deu samba

Carnaval é época de descontração e divertimento, mas a alegria também dá passagem ao desabafo. E assim surgem as sátiras políticas, presentes nas marchinhas de Carnaval e que tratam, sempre de maneira bem-humorada, dos acontecimentos políticos em voga na época.
A relação entre a política e o Carnaval é antiga, vem de muito antes, portanto, de mensaleiros e sanguessugas botarem seus blocos na rua. E remete aos tempos do Império, antes mesmo de a festa se tornar um símbolo nacional. Já no século passado, as clássicas marchinhas – quase sempre críticas – também serviram para render homenagens ou relembrar fatos históricos.
Em seu mais recente livro, “Política e Religiões no Carnaval” (Ed. Irmãos Vitale), lançado em janeiro, o jornalista, produtor cultural e escritor Haroldo Costa (foto) apresenta alguns exemplos de como os fatos políticos influenciaram e continuam a contagiar a festa mais tradicional do país.
“O livro faz um levantamento da política como fato ao longo da história do Brasil”, explica Haroldo Costa, um dos mais profundos conhecedores do Carnaval carioca. A primeira manifestação dessa relação entre política e Carnaval remete a 1761, quando foi feita uma homenagem ao nascimento do príncipe da Beira D. José, conta o escritor.
Depois, em 1786, um novo desfile foi realizado nas ruas do Rio de Janeiro para comemorar o casamento de D. João IV com a princesa Carlota Joaquina. A festa foi produzida pelo vice-rei Luis de Vasconcelos.
O início da festa
Tradicionalmente costuma-se atribuir o início do Carnaval à chegada da família real portuguesa no Brasil, em 1808. Mas a festa começou muito antes, garante Haroldo Costa. E, surpreendentemente, chegou primeiro a Porto Alegre, com a vinda, em 1762, de 60 casais da ilha dos Açores que trouxeram para cá o entrudo. Essa primeira manifestação carnavalesca era semelhante ao Carnaval de rua de Pernambuco: blocos de rua com bonecos gigantes.
“Depois, por volta de 1820, foram formadas as sociedades carnavalescas, que se engajavam na luta política. Elas eram pré-abolição e pró-República”, diz Haroldo ao Congresso em Foco.
Intelectuais e artistas da época participavam dessas sociedades, que ficaram conhecidas pelos “carros de idéia” (antecessores dos atuais carros alegóricos), nos quais tomavam posição contra abusos e erros de autoridades. Em 1881, por exemplo, o grupo batizado de "Os Fenianos" – cujo nome era uma homenagem a revolucionários irlandeses – levou às ruas do Rio um carro com a figura do então imperador D. Pedro II representado com uma mancha no peito. “Era a mancha da escravidão”, explica o pesquisador.
Ele também lembra que os dois primeiros presidentes brasileiros, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, também foram “homenageados” no Carnaval e ganharam marchinhas próprias.
“Então a história do Carnaval é pontuada por músicas que falam de fatos políticos. No Estado Novo também havia várias musicas sobre Getúlio Vargas. Embora elas sempre falassem bem dele, por causa da censura, sempre apareciam alguns carros de crítica nos desfiles”, relata Haroldo Costa. Entre as composições enaltecedoras dedicadas ao então presidente está “Seu Getúlio” (veja a letra), de André Filho, que viria a compor o hino Cidade Maravilhosa.
No bico da chaleira
A sátira política nas músicas de Carnaval, conta o pesquisador, ajudaram até a inventar um verbo: “chaleirar”, que hoje é usado para caracterizar o bajulador, o famoso puxa-saco.
O senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado, líder do Partido Republicano Conservador, era conhecido por sempre tomar chimarrão em suas reuniões. Um dia, quando um de seus auxiliares foi servir a água quente para colocar no mate, em vez de segurar na asa, pegou no bico da chaleira. O episódio deu origem a uma marchinha de Carnaval.
A música “No Bico da Chaleira”, de Juca Stotoni, fez sucesso no Carnaval de 1909. Sua letra, embora não trouxesse o novo verbo, ajudou a consagrá-lo como sinônimo de bajular entre a população. A marchinha dizia: “Iaiá, me deixe subir nessa ladeira/ que eu sou do grupo que pega na chaleira". Uma das figuras mais fortes do Legislativo, Pinheiro Machado morava no alto do Cosme Velho, no Rio. A música fez tanto sucesso que resultou na peça de teatro-revista Pega na chaleira, de Raul Perderneiras e Ataliba Reis (ouça a canção).
Festa nacional
A política está presente tanto no Carnaval de rua quanto nos enredos das escolas de samba. As escolas do Rio de Janeiro, por exemplo, já homenagearam Juscelino Kubitscheck, Tiradentes e Zulu dos Palmares, figuras marcantes da história do país.
Em 1989, ano do centenário da República, o samba da Imperatriz Leopoldinense, “Liberdade, Liberdade! Abre as Asas sobre Nós!”, arrasou na avenida (ouça). Vencedor daquele ano, ele ainda hoje é um dos enredos mais lembrados da folia carioca (veja a letra).
“Carnaval é liberação total. É um momento de divertimento e de democratização. E a crítica política também entra nessa liberação”, defende Haroldo Costa, acrescentando que o Brasil é o único país do mundo que tem o Carnaval como uma festa nacional.
Para ele, é no Carnaval que as pessoas encontram espaço para transmitir suas emoções, sejam de satisfação ou de insatisfação. Este ano no Rio, por exemplo, ele acredita que vários blocos falarão sobre o boicote ao pagamento do IPTU, assunto que tem mexido com a cidade e tirado o sono do prefeito César Maia (DEM). 
“O Carnaval no Brasil é um acontecimento que mobiliza todo mundo. Tem crítica, mas também tem homenagem e elogio. Nos outros países a festa é mais localizada e, na maioria das vezes, consiste em um baile de máscaras ou um desfile de carros”, diz o pesquisador.
Fonte: Congresso em foco

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