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segunda-feira, julho 15, 2013

A diferença de Marina Silva



*Por Renato Janine Ribeiro

Como já informei, logo depois de meu artigo "Marina Silva e as chances perdidas", a líder da Rede Sustentabilidade me convidou para uma conversa, que ocorreu na casa do professor Ricardo Abramovay. O que chama a atenção em Marina - pelo menos para quem nunca tinha conversado com ela - é a informalidade. Chamei-a de "senadora", mas ela afastou a forma de respeito e me convidou a dar-lhe o você. Mas este é apenas um sinal de algo mais significativo.

Se você conversar com um presidenciável petista ou tucano, esperará que fale de projetos para o Brasil e dê números para sustentá-los. Falarão em investimentos, em PIB e, se tiverem noção dos fins para que governam, mencionarão problemas sociais e econômicos e os remédios que lhes propõem. Eis duas características do discurso político habitual: os dados, que fazem crer na seriedade do candidato - e o subentendido de que a ação política é totalmente diferente da ação individual ou pessoal. O candidato não se apresenta como um igual a você. A agenda dele é diferente da que você pode ter. Você não pode influenciar o crescimento do PIB, o aumento do crédito, a reindustrialização.

Nada disso acontece com Marina. Não só porque cita Freud e até Lacan, o que atesta uma curiosidade intensa, mas sobretudo porque, me parece, ela não vê a política como um domínio separado da vida das pessoas. O que vale na psicologia vale na política. Arrisco-me a dizer que talvez esteja aí a raiz de uma crítica que lhe dirigem, sobre a possível interferência de sua fé evangélica em decisões políticas: se o que lhe interessa é a pessoa, nem psicologia nem valores podem se confinar num espaço extra-político. Eles devem fecundar a politica; aqui, sugiro a tese de que a política, no Brasil, vampiriza. Ela de tempos em tempos requer sangue novo, gente como Mario Juruna, Fernando Gabeira, Regina Gordilho, dos quais a maior parte (Gabeira é a exceção) acaba triturada por esse misto que nossa política exibe - a necessidade de sangue novo, mas também a ojeriza a tudo o que é novo, tudo o que rompa com o sistema existente, culminando num ultimato: "rende-te ou te destruo".

Na política, o que importa é a atitude
O projeto de Marina Silva pode ser expresso tanto na linguagem da política quanto na da vida pessoal. É como se para ela não fizesse sentido cindir a política, reino da repartição do PIB, e a vida pessoal, espaço só privado. Por isso ela pode transitar o tempo todo de uma para outra. Por isso seu tema não está na ação convencionalmente política. Por isso seu partido não se chama partido. Por isso ela pode se associar a ex-tucanos sem maiores problemas. Por isso suas ideias podem apelar aos mais jovens, aos rebeldes dos últimos meses. Quem não entender isso não a entenderá; nem entenderá o que tem acontecido, de novo, entre nós.

Uma tal atitude abre caminhos. Permite condenar a corrupção nas esferas de governo, não como a oposição, que se esmera em apontar o cisco no olho do outro mas esconde a trave no seu próprio (quem usa a imagem bíblica sou eu, não Marina), mas de um ponto de vista que sai da política, para ser intensamente ético. Não é fortuito que os sustentáveis tenham nascido dos verdes. Mesmo não conhecendo Rousseau, eles parecem dever muito de suas convicções a uma ideia do filósofo, que agora exponho.

Rousseau afirma que há males que fazem mal ao próprio autor deles. A propriedade privada é um mal, assim como a vaidade. Mas o rico e o vaidoso também são vítimas de suas próprias ações. Rousseau não divide o mundo em bons (as vítimas) e maus (os algozes). Superar a degradação do mundo fará bem até aos malfeitores. Ora, não é este o eixo da politica verde? que lembra que o próprio predador da natureza sofrerá pelo mal que causa. Não opera com uma soma zero, na qual o que as vítimas perdem vai para o algoz, mas com somas negativas (todos perdem) ou positivas (todos ganham). O modelo de um projeto político win-win, como alguns o chamam, pode estar na ecologia. Um meio-ambiente limpo beneficia a todos. Daí que a política verde seja diferente das políticas de disputa. Ela pretende integrar. Se navegar pela exclusão, como as demais políticas, não será verde.

Um dos grandes êxitos na educação básica, nos últimos anos, é a difusão do "reduzir, reutilizar, reciclar". E não é por acaso que esse princípio, que vem eticizando nossos filhos, é um mote que efetua a passagem do verde ao sustentável. Poderia ser um mote da Rede - mas não do PT ou do PSDB. Para esses partidos, é uma proposta apolítica. Para o projeto da Rede, porém, é exemplar. O que eles pretendem vai além da política.

Volto ao que pude ouvir de Marina Silva e seus colaboradores. Eles estão otimistas. Creem num crescimento até rápido de sua força. Eu, embora simpatize com tudo isso, vejo problemas. A passagem de "verde" a "sustentável", por exemplo: verde é limitado, mas preciso (e positivo); sustentável é amplo - mas vago e requer muita discussão. Já as propostas de reforma política, conquanto bem intencionadas, lembram medidas que, adotadas na Califórnia, tiveram resultados contrários aos esperados. Também penso que a agenda petista - a da urgência de enfrentar a miséria - está longe de se esgotar. Querem também pôr fim ao ódio e à exclusão em nossa política, mas creio que infelizmente a demofobia de nossos abastados é maior do que imaginam.

Mas eles são o grupo que mais pensa o futuro, que está mais perto do que a vida de hoje, nas ruas e nas redes, imagina.

PS - Como se vê, o mais importante para mim não foram os assuntos tratados, que a maior parte conhece, mas a atitude - que procurei descrever e ousei interpretar.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo

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